sábado, 31 de janeiro de 2009



ONDE ESTÁ O SEGREDO DOS QUENIANOS?


Berlim, setembro de 2003. Todo o mundo assiste espantado o grande feito do queniano Paul Tergat, ao tornar-se o recordista mundial em maratonas. O novo recorde é estabelecido em 2h04'55'', o segundo colocado, também queniano chega um segundo atrás de seu compatriota. Ao fazer as contas do ritmo da prova, pode-se constatar que Paul correu a prova em menos de 3' por Km, numa velocidade média de 20 km/h.

2008... a São Silvestre é dominada pela África...os brasileiros não aguentaram nem de longe o ritmo dos grandes rivais.
Nós, meros mortais nos perguntamos: Como um ser humano consegue chegar a este nível? Porque será que quase todos os recordes de provas de fundo pertencem a africanos (principalmente quenianos e etíopes)? Será que a gente consegue chegar num nível desses, por maior que seja o treinamento?

Essas perguntas com certeza são bem mais frequentes do que imaginamos. O Bruno do blog correndo na chuva que dirá...Ele adora esse assunto....rs...

Mas na boa, é nítida a supremacia dos africanos tanto por fatores sociais quanto históricos. Primeiramente existe o fator altitude. O povo do Quênia vive em pequenas aldeias em altitudes superiores a 2.500 metros, e, altitudes acima de 2.500 metros favorecem um aumento da taxa de hemoglobina. Como ela é a principal carreadora de O² no sangue, quando presente em maior quantidade favorece a capacidade aeróbica em indivíduos que treinam à partir dessas alturas. Porém, se fosse apenas por esse motivo teríamos também mexicanos, bolivianos e equatorianos vencendo e batendo todo os recordes mundiais não é???
A maioria dos atletas quenianos nasce em áreas rurais e aldeias. Quando crianças são obrigadas a ir a escola correndo, às vezes percorrendo distâncias maiores que 10 km (ida e volta). Muitos já na adolescência ajudam os pais na pecuária, guiando e acompanhando o gado sem cavalos, fazendo todo o serviço a pé (e correndo).
Na região de Rift Valley, mais especificamente na tribo dos nandi reside a maior concentração de corredores do Quênia. É um povo conhecido pela competitividade e individualidade. Além de terem o costume de caçar, o homem da tribo que trouxesse mais animais tinha o direito de se casar com mais mulheres. Dessa forma, o gene do corredor ficava mantido e os membros da tribo sofreram uma adaptação ao meio, tornando-se mais magros e resistentes à fadiga, biomecanicamente adaptados a provas de média e longa distância.
Segundo estudo do Centro de Pesquisas do Músculo em Copenhague, Dinamarca, fora constatado que os atletas quenianos possuem vantagens genéticas significantes, entre elas o fato que durante exercício intenso os corredores quenianos não produzem amônia. Em exercício realizado em velocidade máxima, possuem a mesma concentração de amônia do que os corredores europeus em repouso. A amônia é um subproduto do metabolismo e assim como o lactato é uma das principais causas da fadiga muscular. Essa diferença metabólica é mais um fator que os torna tão especiais.
Apesar de toda essa "vantagem" genética, podemos ver que eles não são imbatíveis. Com o avanço da ciência, a capacitação de professores/treinadores e novas técnicas de treinamento temos demonstrado que com um trabalho sério podemos chegar ao patamar dos quenianos. Os maiores exemplos disso são corredores, como Wanderley Cordeiro de Lima, Franck Caldeira e Marílson Gomes dos Santos que têm vencido provas com a presença dos quenianos "tops", como Paul Tegart, Stephen Kiogora, Robert Cheruiyout e cia. Tudo bem...a coisa não anda lá essas coisas para os brasileiros, mas estão aí, se esforçando e muitas vezes sim, ganhando dos quenianos.
Eis abaixo alguns requisitos fisiológicos para que um indivíduo se torne um bom corredor fundista:

Hereditariedade: Determinará a carga genética, indica o potencial predominante anaeróbico ou aeróbico.
Maior Percentual de Fibras Tipo I: Fibras vermelhas, maior percentual de mitocôndrias, maior metabolismo aeróbico.
Maior quantidade de Hemoglobina: principal carreador de O² no sangue.
VO² Máximo elevado: Determina a captação máxima de oxigênio, a potência aeróbica máxima de um indivíduo. Atletas de elite possuem o VO² Máximo acima de 65 ml/kg/min.
Alto limiar de acidose: Ponto de acúmulo de lactato na musculatura (OBLA). Indivíduos com alto limiar de acidose conseguem correr sem "quebrar" tão cedo durante a prova. Para se ter uma idéia de sua importância, o próprio Paul Tergat possui o limiar de acidose na faixa de faixa de 93% do seu VO² máximo.

É lógico que os fatores genéticos irão influenciar diretamente na capacidade aeróbica de um indivíduo. No entanto, qualquer pessoa que realiza treinamento aeróbico sofrerá uma série de adaptações que farão com que ela melhore o seu condicionamento para tais atividades.
Dessa forma, é importante que haja investimento tanto do poder público quanto de empresas privadas no intuito de desenvolver e apoiar o atletismo em escolas, clubes, vilas olímpicas, ongs, centros de treinamento etc. Com o objetivo de formar não apenas atletas com potenciais de vitória, mas acima de tudo cidadãos e pessoas que utilizem a corrida com o intuito da melhoria da qualidade de vida.


Referências Bibliográficas:
MARTINS, M.V. Quênia: Pátria de Chuteiras. In: Revista O². ed Efera Br Mídia. Abril de 2003.
POWERS, S. K. Fisiologia do Exercício: teoria e aplicação ao condicionamento e ao desempenho humano. 5ª ed. Barueri: Manole, 2005.
SHARKEY, B.J. Condicionamento Físico e Saúde. Editora Artmed, 4ª edição, 1998

Um comentário:

André Cruz - Xampa disse...

Ótimo post!!! Parabéns!!!